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A Alma do Homem Sob o Software Livre

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Hoje eu quero falar sobre ismos. O que seriam esses tais ismos? Coisas que convivemos todos os dias, a cada instante: egoísmo, catolicismo, protestantismo, budismo, hinduísmo, ateísmo, consumismo, machismo, feminismo, ufanismo, ostracismo, totalitarismo, dadaísmo… São tantos… Que pena que são tantos. Propositalmente, ainda não havia citado as principais ideologias políticas.

O comunismo é uma proposta de organização social na qual não existe a propriedade privada. No capitalismo, por sua vez, cada um deve ser recompensado segundo o que produz. Já no anarquismo, não existe o Estado onipotente. Na prática, todos os modelos fracassaram em relação aos ideais originais por esquecerem de um fator relevante no processo: a natureza humana. No comunismo-socialismo, os líderes acabam com privilégios demais e a população subjugada. No capitalismo, o acentuamento das desigualdades gera uma grande quantidade de miseráveis e marginais. Na anarquia, o regime acaba sendo sucumbido pelos interesses e forças internas e/ou externas. Segundo Millôr Fernandes, “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O socialismo é o contrário“.

O software livre consegue, de forma espontânea, reunir de forma intrigante as três virtudes de cada sistema e excetuar os seus defeitos. Não há propriedade, controle e os méritos dos autores são reconhecidos, sem que em contrapartida, hajam exigências, fragilidades ou explorações.

Muitos acreditam que o governo é o poder público. Os governos impedem pessoas de outras nacionalidades de conhecerem lugares, coisas e outras pessoas. Os governos tomam à força uma grande parte do resultado do suor e dos sonhos dos cidadãos e gastam como bem entendem. Os governos delegam, com critérios questionáveis, poderes a pessoas para administrar, legislar e julgar ao seu bel prazer. Os governos vivem em função da população, mas esta não tem acesso às instalações civis e militares restritas desses governos. E o que as pessoas fazem diante disto? Amontoam-se aos milhões, seja em eleições ou concursos públicos, fazendo o que lhes está ao alcance no desejo de usufruir dos benefícios de se fazer parte deste sistema governamental. “O Estado é a Negação da Humanidade!”, afirmou Mikhail Bakunin.

Público é o software livre. Ao mesmo tempo em que não pertence a ninguém, pertence a mim, a você, às pessoas que possuem e às que não possuem um computador e mesmo aos CEOs das maiores empresas de software comercial do mundo. Basta simplesmente querer usá-lo. E nada nos obriga a usá-lo. É pena que Lennon não viveu para ver, de certa forma, seu mundo ideal imaginado:

Imagine no possessions (Imagine não existir posses)
I wonder if you can (Surpreenderia-me se você conseguisse)
No need for greed or hunger (Sem necessidades de ambição e fome)
A brotherhood of man (Uma irmandade humana)
Imagine all the people (Imagine todas as pessoas)
Sharing all the world (Compartilhando todo o mundo)
You may say that I’m a dreamer (Talvez você diga que eu sou um sonhador)
But I’m not the only one (Mas não sou o único)
I hope someday you’ll join us (Desejo que um dia você se junte a nós)
And the world will live as one (E o mundo viverá como um só)

Aos críticos do software livre, digo que vocês têm todo o direito de fazê-lo. Mas estejam cientes que criticar gratuitamente o software livre é atirar pedras numa das únicas iniciativas de pessoas das mais diferentes nacionalidades, raças, credos e ideologias de se unirem em prol de um objetivo único de compartilhar conhecimento e possibilidades sem exigirem nada em troca. “Não concordo com uma só palavra do que dizes mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”, disse Voltaire. Não fosse assim, não seria liberdade.

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Admirável Software Novo

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Roberval recebe alta do hospital estreando o seu novo coração: um SmartCardio Plus 5G, com correção automática de pressão, verificador de funções vitais com interface bluetooth 5 e um MP8 Coranción, “o player que toca o seu coração“. Na boca, um sorriso aguado: durante a recuperação da cirurgia, uma revista anunciava uma nova geração de corações artificiais com uma propaganda agressiva: o homem de lata devolvendo o despertador ao mágico de Oz. “Homem de lata, mas só por enquanto“. Por um momento, lembrou-se que nunca teve problemas cardíacos e seu velho amigo do peito poderia estar ainda estar marcando o passo de sua vida. “Mas quem precisa dessas coisas foras de moda? O importante é que o SmartCardio NewGen me faz feliz“. “Não é o Plus 5G que você está usando, papai?“, pergunta a filha. “Por enquanto…“.

No admirável mundo novo, tudo é feito para se tornar obsoleto. Televisores, carros, câmeras… Nossos sonhos de consumo são substituídos por outros aprimorados. Nada nos satisfaz. Na informática, este processo funciona de forma ainda mais acelerada: o mercado lança uma nova revolução várias vezes por ano. No intervalo entre os processadores, são os adaptadores de vídeo. Tudo isso proporcionando ao software mais recursos… E haja upgrades!

Recentemente vi o filme História das Coisas. Fantástico. Não pude deixar de analisar o mercado de software à luz dele. De fato, o que uso hoje num computador é um browser e um editor de textos, planilhas e apresentações. Fora isso? Gravo um CD ou DVD de vez em quando e um player de Xvid. O utilitário de escritório, para mim, deve poder escrever em negrito e itálico e imprimir os textos. Mas, num intervalo regular de anos, é lançado um novo pacote com recursos mirabolantes, suprindo todas as necessidades que a versão anterior pecou por não prevê-las. O fato é que o mercado de software nos dá a sensação de evolução a cada upgrade que fazemos.

E onde entra o software livre nesse contexto? Simplesmente não entra. Mal sai uma versão do Ubuntu e já estamos esperando outra. E que decepção quando ela chega… Mesma cara da versão anterior. “Não evoluímos”. Correção de bugs, melhoria de funcionalidades… Mas e a evolução?

A questão é que ainda não compreendemos o que é o software livre. Será que realmente não podemos viver sem tantos novos recursos extraordinários? Será que o homem não deveria ser senhor sobre todas as coisas e não servo de suas criações? Será que os benefícios práticos para a nossa vida são mais importantes que as aparências? Cada vez mais me convenço que sim.

Enquanto quisermos que o software livre seja um clone gratuito do software comercial, para nós ele será apenas isto. Mas se mudarmos os paradigmas e transcendermos o que nos é imposto pela Matrix, talvez possamos compreender sua origem, razão e finalidade quintessenciais: a liberdade.

Não sois máquina! Homem é o que sois!” (Charles Chaplin)

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