Admirável Software Novo
Roberval recebe alta do hospital estreando o seu novo coração: um SmartCardio Plus 5G, com correção automática de pressão, verificador de funções vitais com interface bluetooth 5 e um MP8 Coranción, “o player que toca o seu coração“. Na boca, um sorriso aguado: durante a recuperação da cirurgia, uma revista anunciava uma nova geração de corações artificiais com uma propaganda agressiva: o homem de lata devolvendo o despertador ao mágico de Oz. “Homem de lata, mas só por enquanto“. Por um momento, lembrou-se que nunca teve problemas cardíacos e seu velho amigo do peito poderia estar ainda estar marcando o passo de sua vida. “Mas quem precisa dessas coisas foras de moda? O importante é que o SmartCardio NewGen me faz feliz“. “Não é o Plus 5G que você está usando, papai?“, pergunta a filha. “Por enquanto…“.
No admirável mundo novo, tudo é feito para se tornar obsoleto. Televisores, carros, câmeras… Nossos sonhos de consumo são substituídos por outros aprimorados. Nada nos satisfaz. Na informática, este processo funciona de forma ainda mais acelerada: o mercado lança uma nova revolução várias vezes por ano. No intervalo entre os processadores, são os adaptadores de vídeo. Tudo isso proporcionando ao software mais recursos… E haja upgrades!
Recentemente vi o filme História das Coisas. Fantástico. Não pude deixar de analisar o mercado de software à luz dele. De fato, o que uso hoje num computador é um browser e um editor de textos, planilhas e apresentações. Fora isso? Gravo um CD ou DVD de vez em quando e um player de Xvid. O utilitário de escritório, para mim, deve poder escrever em negrito e itálico e imprimir os textos. Mas, num intervalo regular de anos, é lançado um novo pacote com recursos mirabolantes, suprindo todas as necessidades que a versão anterior pecou por não prevê-las. O fato é que o mercado de software nos dá a sensação de evolução a cada upgrade que fazemos.
E onde entra o software livre nesse contexto? Simplesmente não entra. Mal sai uma versão do Ubuntu e já estamos esperando outra. E que decepção quando ela chega… Mesma cara da versão anterior. “Não evoluímos”. Correção de bugs, melhoria de funcionalidades… Mas e a evolução?
A questão é que ainda não compreendemos o que é o software livre. Será que realmente não podemos viver sem tantos novos recursos extraordinários? Será que o homem não deveria ser senhor sobre todas as coisas e não servo de suas criações? Será que os benefícios práticos para a nossa vida são mais importantes que as aparências? Cada vez mais me convenço que sim.
Enquanto quisermos que o software livre seja um clone gratuito do software comercial, para nós ele será apenas isto. Mas se mudarmos os paradigmas e transcendermos o que nos é imposto pela Matrix, talvez possamos compreender sua origem, razão e finalidade quintessenciais: a liberdade.
“Não sois máquina! Homem é o que sois!” (Charles Chaplin)
