Sem categoria Os axiomas e a liberdade na alimentação

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“Eu, filho do carbono e do amoníaco, monstro de escuridão e rutilância” e fã de Augusto dos Anjos, passei boa parte da vida consumindo carnes, lácteos, ovos e outros produtos de origem animal. Consumir isto por mais de 30 anos me dá propriedade de falar sobre onivorismo, pois sei, pela minha própria experiência, os efeitos desta prática sobre o meu corpo, minha mente e meu espírito.

Hoje eu não consumo mais produtos de origem animal e sei o que isto fez mudar na minha vida. Parar de comer carne fez reverter meus problemas circulatórios, a abstinência do leite desobstruiu minhas vias respiratórias e fez cessar a sinusite, hoje meu suor fede menos, meu estômago fica leve depois das refeições, consigo meditar mais facilmente e passei a valorizar e prestar mais atenção em cada refeição. Eu posso falar sobre o que é ser vegetariano, pois vivo isso.

Sabendo o que cada um dos modos de vida tem a me oferecer (agravado pelo fato que eu praticava auto-observação sufi desde o tempo de onívoro e já prestava atenção no meu corpo), hoje eu permaneço me abstendo de produtos animais. Defender o onivorismo ou o vegetarianismo quase sempre é um axioma mental. Mas quando se alinha o fazer (corpo), sentir (espírito), pensar (mente) em direção da alma (atman, budhi, e manas), se atinge o conceito filosófico de ética, o caduceu de Mercúrio. Quando vem da alma, e não da mente, não se duvida mais.

As pessoas que me rodeiam acham que eu vivo infeliz, pois renuncio a grande parte do que é servido em quase todos os restaurantes. Os hábitos da sociedade consumista faz a manada acreditar que um encontro social tem que envolver comida, bebida ou ambos. As pessoas não marcam mais encontros em praças ou praias. Sempre em restaurantes ou barzinhos. Isto me faz ser limitado? Limitado é quem não tem opção da escolha. Muitos até acham que são livres mas não percebem que passam a vida inteira condicionados aos mesmos conceitos e não têm a coragem de experimentar o diferente. Como dizia Epíteto, escravo grego, ao seu “senhor”, “não sou seu escravo porque você não tem nada que eu deseje”.

Passaram-se mais de dois anos entre a primeira vez que vi o filme Terráqueos e a decisão de abstinência. Neste período, eu argumentei como pude contra a idéia do vegetarianismo. Cheguei a entrar em comunidades veganas para vomitar meus pensamentos. Como o mencionado filme diz, a primeira reação normalmente é a negação. É algo que inquieta. Você quer lutar contra… Muitos algum dia se cansam de argumentar com o conhecimento parcial e conhecem o outro lado, querendo ter uma posição mais sensata. É óbvio que nem tudo na vida você vai experimentar, como as drogas ou bater o carro contra um muro a 100 Km/h, até porque os resultados são conhecidos e não parecem ser bons. Mas as coisas pertinentes são como sementes que perturbam, como o morcego do já citado autor paraibano, até que sejam formentadas a coragem e a vontade. E eis que regurgitei o que tinha vomitado…

Aos críticos, deixo uma questão: vocês já pararam para pensar na razão pela qual o vegetarianismo lhes incomoda tanto?

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Sem categoria O Homem que Copiava Software

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Ontem li uma reportagem no site IDG Now! sobre uma multa de 7 bilhões de reais que o Stand Center foi condenado a pagar à ABES (Assoc. Bras. das Empresas de Software) por comercialização de software pirata. Valor justo?

O software pago tem seu preço. Além do valor monetário, muitas vezes gera-se dependência. A quem almeja poder faz-se necessário estabelecer uma necessidade. É cômodo viver na caverna. O software livre também tem seu preço. É inegável que é mais complicado e desmotivante reaprender meios de se trabalhar para suprir com determinadas necessidades, muitas vezes com recursos mais limitados, quando se vê colegas continuando a fazer da maneira que você sempre fez sem grandes desafios. Este é o preço do software livre. Sair da caverna não é fácil e nem tampouco é para todo mundo.

O ser humano, porém, tem uma mania abusada de querer usufruir dos bônus sem arcar com os ônus inerentes. Tudo tem seu preço, mas as pessoas parssaram a acreditar que o os fatos desconhecidos por todos não terão consequências. “A verdadeira medida do caráter de um homem é o que ele faria se soubesse que nunca seria descoberto“, segundo Thomas B. Macaulay. Será que se eu avanço um sinal vermelho e ninguém vê, não existiu crime? Será que não houve um grande desrespeito para com a sociedade e uma inconsequência sem medidas ao expor pessoas (crianças, pais de família, mulheres grávidas ou quem quer que seja) a um risco de morte, danos físicos e/ou perdas de entes queridos? Mas se os acidentes não se confirmam, guardas não apitam ou flashes não disparam, o cidadão segue tranquilo para casa e esquece do que fez poucos instantes atrás.

A pirataria é isso: querer a comodidade do software pago sem pagar o que os detentores dos direitos autorais cobram em troca. Na reportagem mencionada, a ABES declara que o índice de pirataria de software no Brasil é de 59%, causando um prejuízo de 1,6 bilhão de dólares somente no último ano.

Muitos dizem rejeitar a idéia de patentes. Os que questionam propriedades privadas não deveriam possuí-las ou considerá-las como tal, pois “minha casa não é minha, e nem é meu este lugar” (Milton Nascimento / Fernando Brant). A César o que é de César. (Mt 22,21)

É importante que cada um siga seu caminho consciente das consequências de suas atitudes. Os que querem conforto, paguem por isso. Os que querem liberdade, que adaptem-se à realidade e procurem melhorá-la da maneira que lhes é possível. Por último, aos piratas, saibam que estão comentendo crimes e por isso estão sujeitos a sanções legais e, quem sabe, algo mais. Isto se chama responsabilidade.

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Ideologia, Software Livre A Alma do Homem Sob o Software Livre

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Hoje eu quero falar sobre ismos. O que seriam esses tais ismos? Coisas que convivemos todos os dias, a cada instante: egoísmo, catolicismo, protestantismo, budismo, hinduísmo, ateísmo, consumismo, machismo, feminismo, ufanismo, ostracismo, totalitarismo, dadaísmo… São tantos… Que pena que são tantos. Propositalmente, ainda não havia citado as principais ideologias políticas.

O comunismo é uma proposta de organização social na qual não existe a propriedade privada. No capitalismo, por sua vez, cada um deve ser recompensado segundo o que produz. Já no anarquismo, não existe o Estado onipotente. Na prática, todos os modelos fracassaram em relação aos ideais originais por esquecerem de um fator relevante no processo: a natureza humana. No comunismo-socialismo, os líderes acabam com privilégios demais e a população subjugada. No capitalismo, o acentuamento das desigualdades gera uma grande quantidade de miseráveis e marginais. Na anarquia, o regime acaba sendo sucumbido pelos interesses e forças internas e/ou externas. Segundo Millôr Fernandes, “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O socialismo é o contrário“.

O software livre consegue, de forma espontânea, reunir de forma intrigante as três virtudes de cada sistema e excetuar os seus defeitos. Não há propriedade, controle e os méritos dos autores são reconhecidos, sem que em contrapartida, hajam exigências, fragilidades ou explorações.

Muitos acreditam que o governo é o poder público. Os governos impedem pessoas de outras nacionalidades de conhecerem lugares, coisas e outras pessoas. Os governos tomam à força uma grande parte do resultado do suor e dos sonhos dos cidadãos e gastam como bem entendem. Os governos delegam, com critérios questionáveis, poderes a pessoas para administrar, legislar e julgar ao seu bel prazer. Os governos vivem em função da população, mas esta não tem acesso às instalações civis e militares restritas desses governos. E o que as pessoas fazem diante disto? Amontoam-se aos milhões, seja em eleições ou concursos públicos, fazendo o que lhes está ao alcance no desejo de usufruir dos benefícios de se fazer parte deste sistema governamental. “O Estado é a Negação da Humanidade!”, afirmou Mikhail Bakunin.

Público é o software livre. Ao mesmo tempo em que não pertence a ninguém, pertence a mim, a você, às pessoas que possuem e às que não possuem um computador e mesmo aos CEOs das maiores empresas de software comercial do mundo. Basta simplesmente querer usá-lo. E nada nos obriga a usá-lo. É pena que Lennon não viveu para ver, de certa forma, seu mundo ideal imaginado:

Imagine no possessions (Imagine não existir posses)
I wonder if you can (Surpreenderia-me se você conseguisse)
No need for greed or hunger (Sem necessidades de ambição e fome)
A brotherhood of man (Uma irmandade humana)
Imagine all the people (Imagine todas as pessoas)
Sharing all the world (Compartilhando todo o mundo)
You may say that I’m a dreamer (Talvez você diga que eu sou um sonhador)
But I’m not the only one (Mas não sou o único)
I hope someday you’ll join us (Desejo que um dia você se junte a nós)
And the world will live as one (E o mundo viverá como um só)

Aos críticos do software livre, digo que vocês têm todo o direito de fazê-lo. Mas estejam cientes que criticar gratuitamente o software livre é atirar pedras numa das únicas iniciativas de pessoas das mais diferentes nacionalidades, raças, credos e ideologias de se unirem em prol de um objetivo único de compartilhar conhecimento e possibilidades sem exigirem nada em troca. “Não concordo com uma só palavra do que dizes mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”, disse Voltaire. Não fosse assim, não seria liberdade.

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Consumismo, Software Livre Admirável Software Novo

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Roberval recebe alta do hospital estreando o seu novo coração: um SmartCardio Plus 5G, com correção automática de pressão, verificador de funções vitais com interface bluetooth 5 e um MP8 Coranción, “o player que toca o seu coração“. Na boca, um sorriso aguado: durante a recuperação da cirurgia, uma revista anunciava uma nova geração de corações artificiais com uma propaganda agressiva: o homem de lata devolvendo o despertador ao mágico de Oz. “Homem de lata, mas só por enquanto“. Por um momento, lembrou-se que nunca teve problemas cardíacos e seu velho amigo do peito poderia estar ainda estar marcando o passo de sua vida. “Mas quem precisa dessas coisas foras de moda? O importante é que o SmartCardio NewGen me faz feliz“. “Não é o Plus 5G que você está usando, papai?“, pergunta a filha. “Por enquanto…“.

No admirável mundo novo, tudo é feito para se tornar obsoleto. Televisores, carros, câmeras… Nossos sonhos de consumo são substituídos por outros aprimorados. Nada nos satisfaz. Na informática, este processo funciona de forma ainda mais acelerada: o mercado lança uma nova revolução várias vezes por ano. No intervalo entre os processadores, são os adaptadores de vídeo. Tudo isso proporcionando ao software mais recursos… E haja upgrades!

Recentemente vi o filme História das Coisas. Fantástico. Não pude deixar de analisar o mercado de software à luz dele. De fato, o que uso hoje num computador é um browser e um editor de textos, planilhas e apresentações. Fora isso? Gravo um CD ou DVD de vez em quando e um player de Xvid. O utilitário de escritório, para mim, deve poder escrever em negrito e itálico e imprimir os textos. Mas, num intervalo regular de anos, é lançado um novo pacote com recursos mirabolantes, suprindo todas as necessidades que a versão anterior pecou por não prevê-las. O fato é que o mercado de software nos dá a sensação de evolução a cada upgrade que fazemos.

E onde entra o software livre nesse contexto? Simplesmente não entra. Mal sai uma versão do Ubuntu e já estamos esperando outra. E que decepção quando ela chega… Mesma cara da versão anterior. “Não evoluímos”. Correção de bugs, melhoria de funcionalidades… Mas e a evolução?

A questão é que ainda não compreendemos o que é o software livre. Será que realmente não podemos viver sem tantos novos recursos extraordinários? Será que o homem não deveria ser senhor sobre todas as coisas e não servo de suas criações? Será que os benefícios práticos para a nossa vida são mais importantes que as aparências? Cada vez mais me convenço que sim.

Enquanto quisermos que o software livre seja um clone gratuito do software comercial, para nós ele será apenas isto. Mas se mudarmos os paradigmas e transcendermos o que nos é imposto pela Matrix, talvez possamos compreender sua origem, razão e finalidade quintessenciais: a liberdade.

Não sois máquina! Homem é o que sois!” (Charles Chaplin)

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